Nasrudin
99 Contos


Resenha:


Nasrudin e sua esposa viviam juntos há muitos anos, mas nunca haviam se casado formalmente. Um dia, ela estava se sentindo especialmente romântica e disse para o Mulá:

– Nasrudin, já estamos juntos há muito tempo.
O que você pensa sobre nos casarmos?

– Me parece uma idéia excelente – disse o mulá. – Mas quem vai querer casar conosco em nossa idade?

Este é o humor do mulá Nasrudin, figura mítica cujas origens remetem ao século XIII e à cultura de países como Turquia, Irã, Iraque, Síria e Grécia, entre outros. Alguns livros foram publicados no Brasil com coletâneas de anedotas a ele atribuídas, mas Nasrudin – 99 contos é a melhor, mais completa e bem organizada edição até agora.

O livro traz uma apresentação onde o editor explica a função das piadas, que não é simplesmente fazer rir. No Oriente são reconhecidas como instrumentos de esclarecimento que indicam novas formas de encarar as situações da vida.

“Quando mais penetrarmos nas histórias de Nasrudin, mais riquezas e sabedoria poderemos extrair delas”, diz a introdução.

A repetição das piadas – ou sua releitura – também é válida, pois algumas podem não ter graça em um primeiro momento, mas ao passo que reproduzem o nosso cotidiano, mais adiante surge situação semelhante em nosso caminho e finalmente as compreendemos. E rimos!

Nasrudin – 99 contos usa criatividade e recursos gráficos para enfatizar o conteúdo das piadas – lembrando a poesia concreta. Traz ainda um índice que permite localizar com facilidade qualquer uma delas ao longo do livro.

Após o chiste de número 99, vem um valoroso posfácio do escritor Idries Shah (1924-1996), publicado originalmente no livro Os Sufis (Ed. Pensamento-Cultrix, esgotado). Shah foi, ele mesmo, um grande compilador das histórias de Nasrudin. Nascido na Índia, em uma família de aristocratas afegãos, teve sua vida e obra dedicados ao sufismo, considerado a veia mística do Islã. Publicou vários livros sobre esta filosofia, sempre com discurso livre de influências religiosas.

Diz Idries Shah: “Em sua qualidade de mestre sufi, Nasrudin faz uso freqüente da técnica dos dervixes de representar ele mesmo o papel do homem ignorante da história, a fim de chamar a atenção para uma verdade.”

O livro deixa claro que ninguém sabe ao certo quem foi Nasrudin, se existiu realmente, quando ou onde. Mas o fato é que esse personagem permanece através da História, fazendo rir e nos instruindo com suas piadas impregnadas da verdade.

Valéria Martins
(jornalista e escritora, autora do livro Encontros com Deus)